Crédito, Arquivo Nacional
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- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Afirmar que Garota de Ipanema, de 1962, é marco indelével da MPB e a canção brasileira mais conhecida em todo o planeta é chover no molhado.
Diretor da Revista da Música Popular, o jornalista Lúcio Rangel (1914-1979) sabia que Moraes procurava um músico para a peça e foi quem apresentou Jobim ao poeta.
“Esse encontro foi determinante para o que se desdobraria depois no que a gente chamou de MPB”, define o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, um dos editores da coleção Cadernos de Música.
O músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast Silêncio no Estúdio, sintetiza a parceria como “a consolidação oficial do que conhecemos como bossa nova”.
“Não que eles tenham inventado a coisa, mas foi essa parceria que criou a mitologia entre letra e música”, explica ele. “Na parte lírica, antes as músicas no rádio eram sobre sofrimento, drama e dores de cotovelo; com a dupla, tudo virou uma observação da beleza do cotidiano. Da beleza e contemplação do belo.”
A montagem foi histórica. Se tinha viés inovador transformar a realidade das favelas cariocas em pano de fundo de teatro, vale ressaltar que a cenografia foi assinada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) — cuja fama àquela altura já ocupava altos patamares.
Ribeiro situa a peça naquele momento em que o Brasil vivia uma fase otimista, respirando modernidade. “Era um movimento cultural completo, com arte, arquitetura, música convergindo para o otimismo de um Brasil novo”, comenta.
Outro fato relevante para a época foi o elenco. Orfeu da Conceição foi encenado pelo Teatro Experimental do Negro, companhia do dramaturgo e ativista Abdias Nascimento (1914-2011), se tornando a segunda vez em que atrizes e atores negros ocupavam os palcos de um dos mais importantes teatros brasileiros.
Mitologia grega na favela carioca
Crédito, Arquivo Nacional
No enredo, Vinicius de Moraes reinventa, atualiza e transpõe para o Rio o mito de Orfeu, uma das figuras mais conhecidas da mitologia grega. Trata-se de um personagem famoso pelos talentos musicais que, com sua lira, tenta resgatar a amada do submundo.
“A peça representava um negócio muito interessante porque tinha essa modernidade associada a uma conquista que se dava em paralelo que era o Teatro Experimental do Negro, que afirmava a presença negra nas artes, conquistando espaço em ambientes de elite”, avalia Lichote.
O crítico musical ressalta que a montagem teve o encontro de duas frentes sociais que se afirmavam no Brasil daquela época: a modernidade de viés intelectual branco europeizada e a negritude que lutava para ocupar esses espaços de cultura.
“O mito grego e a favela”, resume. “Isso obviamente teve impacto.”
Moraes chegou a chamar o musical de uma homenagem ao negro brasileiro. Evidentemente que há anacronismo nessa leitura, mas hoje é preciso destacar que o autor olhava para a questão sob “a perspectiva de um intelectual branco”, ressalta Lichote.
“Ele representava o olhar mais progressista daquele momento e, num certo sentido, foi bastante carinhoso diante daquele universo. Mas é inegável que [na sua dramaturgia] o negro se torna nobre por meio da cultura grega, como se não pudesse ser nobre por seus parâmetros, como se precisasse da cultura europeia para atingir o status de nobreza.”
Isto fica nítido até mesmo no instrumental. A montagem teve o violão como base.
“A percussão [ligada aos ritmos africanos] na peça está associada ao caos. Isso carrega a perspectiva de que a sociedade daquele momento era racista”, pontua Lichote. “Não que Vinicius de Moraes fosse racista, mas que a peça trazia elementos que hoje, à distância, conseguimos perceber que eram pontos racistas daquela sociedade, elementos que representavam o olhar daquela sociedade.”
“Ao mesmo tempo que a peça valoriza a favela como lugar digno de ser palco de grandes dramas humanos, ela romantiza a favela”, pontua Lichote. “O mesmo ocorre com o negro.”
Professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o músico Felipe Julián Goldfarb também vê nesse “encontro seminal” entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes a base para a reverência e a valorização da cultura afrobrasileira pela MPB.
Crédito, Arquivo Nacional
Uma base para a MPB
“Muitas janelas foram abertas por Orfeu da Conceição“, comenta Lichote.
Moraes e Jobim se tornariam profícuos parceiros. Considerado o álbum inaugural da bossa nova, Chega de Saudade, lançado em 1959 por João Gilberto (1931-2019), contou com duas composições da dupla, incluindo a faixa-título.
“[Os dois] são compositores centrais. Obviamente não fizeram isso sozinhos, tiveram antecedentes”, diz Lichote. “Mas foram os principais formatadores do que a gente chamou de bossa nova: o Vinicius pelo lado lírico, as letras; o Tom pelos procedimentos harmônicos e melódicos, o lado da música.”
“E João Gilberto foi aquele cara que, através do violão, conseguiu arrematar a proposta e dar forma final, definida e sintética ao projeto”, pontua Lichote.
Para o jornalista Lichote, a produção musical da dupla se destacaria em duas frentes: de um lado, escancarou o Brasil que se projetava, em um espírito desenvolvimentista, para o mundo — o ideal de Brasil do futuro, os sonhos que depois seriam amputados pelo golpe de 1964; o outro aspecto foi o arcabouço harmônico que aquele gênero legaria para a geração seguinte, desembocando no que se convencionou chamar de MPB, de Música Popular Brasileira.
“Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, todos eles foram brutalmente influenciados pelo [disco] Chega de Saudade, do João Gilberto. E o que tem ali é Tom e Vinicius”, aponta Lichote.
Crédito, Arquivo Nacional
A empresária artística Anita Carvalho, fundadora da escola Music Rio Academy e pesquisadora da ESPM, acrescenta ainda o aspecto empresarial da parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
“A gente fala muito do encontro entre dois gênios e não avalia a parceria profissional, algo que durou décadas e funcionava”, comenta.
“Isso não é comum porque parceria criativa de longo prazo é desgastante. Mas eles não só se sustentaram ao longo do tempo como criaram um repertório que sustentou as duas carreiras. É o que hoje chamamos de ‘formar um catálogo’.”
Além disso, ela ressalta que Moraes era um homem que “sabia levantar dinheiro”.
“Como diplomata, ele circulava pela Europa e tinha redes [de contatos]. Ele fazia a parte mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia abrir portas e viabilizar um projeto”, afirma Carvalho. “Quando ele procurou alguém para fazer a música de Orfeu, ele estava contratando. E não digo isso diminuindo o talento dos dois. É o contrário. Porque talento não se organiza sozinho e movimento artístico nenhum nasce sem estratégia de gestão.”
Em 1962, os dois fariam Garota de Ipanema, a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. Para Ribeiro, Tom Jobim e Vinicius de Moraes se tornaram uma dupla criativa tão relevante para a música mundial como foram os ex-beatles John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney.
Para Lichote, a parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes pode ser lida no aspecto sociológico como formadora da ideia de nação.
“Eles fundam também um país. Porque o país é uma nação construída a partir do que se diz dela, o que se pensa dela, como ela é projetada. Eles projetaram um outro Brasil”, diz ele. “Deram possibilidades para que se criasse uma nova música popular brasileira, que mostrasse um outro país. Foram fundamentais para a música e para a cultura brasileiras.”
Desdobramentos
Crédito, Wikimedia Commons/ Creative Commons
Orfeu da Conceição não foi apenas a montagem de 1956. No mesmo ano, a gravadora Odeon lançou um LP homônimo — o primeiro álbum da parceria Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Se Todos Fossem Iguais a Você é uma das faixas.
Três anos depois, o cineasta francês Marcel Camus (1912-1982) transformou a peça em filme, rodado no Rio.
Carvalho lembra que o filme foi o pulo do gato que viabilizou a peça. A fita de Camus é resultado do fato de que Moraes havia vendido ao produtor Sacha Gordine (1910-1968) os direitos sobre seu texto — antes mesmo da encenação original, há 70 anos.
“Ele vendeu e usou o dinheiro para financiar a montagem teatral. Foi uma engenharia de projeto bastante sofisticada”, analisa. “Ele usou os direitos de adaptação de uma obra que ainda não existia em cena e, com isso, pagou a produção. Hoje chamamos isso de pré-venda de direitos.”
A peça foi reencenada em 2010, com direção de Aderbal Freire Filho (1941-2023).