Crédito, MTV Documentary Films
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- Author, Miriam Balanescu
- Role, BBC Culture*
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Tempo de leitura: 8 min
Estrelado pelo ator Robert Pattinson (de Batman e A Odisseia), o novo filme Primetime retrata um polêmico programa de televisão que montava operações para flagrar suspeitos de crimes sexuais contra menores de idade. Sucesso de audiência, a atração tema do filme também gerou um grande debate sobre a ética na televisão.
Tudo começou em novembro de 2004, quando a TV americana passou a exibir To Catch a Predator (“Pegando um Predador”, em tradução livre), um novo e polêmico quadro do programa jornalístico Dateline, da emissora NBC.
O quadro começava como uma reportagem comum: uma equipe de televisão aguardava do lado de fora de uma casa em um bairro residencial a chegada de desconhecidos.
Mas aquelas pessoas não eram visitantes comuns. Eles haviam sido atraídas pelo Perverted Justice (“Justiça Pervertida”), um grupo que agia na internet e dizia ter como missão montar armadilhas para possíveis abusadores sexuais de crianças e adolescentes.
Na porta, eram recebidas por um ator adulto que se passava por adolescente.
Câmeras escondidas registravam sua chegada. Em seguida, o apresentador Chris Hansen aparecia e os confrontava com registros comprometedores que haviam deixado na internet. Do lado de fora, a polícia local aguardava o momento de prendê-los.
Aviso: esta reportagem contém referências a suicídio e abuso sexual que podem causar desconforto a alguns leitores.
To Catch a Predator virou um fenômeno nos Estados Unidos. Mistura de jornalismo investigativo com espetáculo televisivo, o quadro chocava e prendia a atenção do público. Chegou a alcançar uma média de 7 milhões de espectadores por episódio.
O programa de Chris Hansen misturava reportagem, ação policial e entretenimento. Era “uma história moral simples e perturbadora sobre receber o castigo merecido e ser humilhado em público”, escreveu Adrian Horton, do jornal britânico The Guardian.
A atração logo passou a ser exibida no horário nobre, concorrendo com a aclamada série Lost, da ABC.
É nesse momento que começa Primetime, o novo filme com o ator Robert Pattinson sobre esse controverso programa que estreou nos EUA e ainda não tem data de estreia no Brasil.
O papel de Chris Hansen
Crédito, Sweet Relief Productions/ Rosewater Pictures
Em uma atuação cotada para o Oscar, Pattinson capta o carisma peculiar de Chris Hansen, apresentador do programa.
Hansen começou a carreira fazendo reportagens investigativas. Um ano antes da estreia de To Catch a Predator, participou de uma operação no Camboja que expôs pedófilos envolvidos no tráfico de crianças para exploração sexual.
A experiência serviu de modelo para o programa que ele faria nos EUA.
“Foi um momento muito particular da história da civilização ocidental onde [pela primeira vez] as crianças viviam na internet e chegavam à idade adulta nesse ambiente”, disse David Osit, diretor de Predators (Predadores, em tradução livre), documentário lançado em 2025 sobre o programa de Hansen, em entrevista à BBC.
“Os jovens usavam [a internet] praticamente sem regras. Quando os adultos perceberam o que estava acontecendo, ficaram horrorizados.”
Osit, que sofreu abuso sexual na infância, conta no documentário que se interessou pelo programa de Hansen quando tinha cerca de 20 anos. Assistia à atração na tentativa de entender por que os agressores cometiam seus crimes. Mais tarde, ao encontrar comunidades de fãs de To Catch a Predator na internet, decidiu fazer seu documentário.
Crédito, Getty Images
Na parte final de Predators, ele entrevista Hansen, que afirma ter feito o programa pensando em sobreviventes de abuso como Osit e que seu trabalho “serve a um propósito maior”.
Outro reality show já havia aberto caminho para To Catch a Predator. Lançado em 2000, Cheaters (Infiéis, em tradução livre) armava flagrantes de infidelidade.
“A ideia era parecida: pessoas submetiam seus parceiros à experiência de serem ‘pegos no flagra'”, diz o jornalista de cultura Louis Staples. “O resultado era um espetáculo estranhamente fascinante, que transformava atos privados em humilhação e punição públicas.”
Uma nova fase dos reality shows
É possível argumentar que a popularidade do programa de Hansen abriu caminho para uma fase mais sensacionalista dos reality shows. Antes, o gênero era marcado por programas apresentados como “experimentos sociais”, como Big Brother e Survivor.
“To Catch a Predator representa o que chamo de era do ‘Velho Oeste’ dos reality shows”, afirma Staples.
“Por volta de 2004, começou a surgir uma onda de programas mais extremos, feitos para chocar. Entre eles estavam The Swan (O Cisne, em tradução livre), um assustador programa de transformações [por meio de cirurgias plásticas], e o programa de encontros There’s Something About Miriam (Há Algo sobre Miriam, em tradução livre) [no qual um grupo de homens saía com uma mulher sem saber que ela era trans. A revelação era reservada para o clímax da atração].
Nesse contexto, To Catch a Predator também elevou a aposta do gênero. Na busca por manchetes e audiência, parecia não haver limites.
Crédito, Getty Images
O programa seguia sempre a mesma fórmula: Hansen lia para os suspeitos, palavra por palavra, suas conversas sexualmente explícitas na internet e respondia com tiradas irônicas.
Antes de ele aparecer, os suspeitos, sem saber que estavam sendo filmados, muitas vezes eram instigados pelas pessoas que se passavam por adolescentes a fazer comentários de teor sexual ou até a se expor fisicamente.
Talvez o mais surpreendente em To Catch a Predator seja que o conteúdo escabroso e o tom de deboche eram apresentados como parte de uma missão: fazer justiça.
“A pedofilia, os crimes sexuais contra crianças e o tráfico de menores ganharam tanto espaço no debate político porque é extraordinariamente fácil se posicionar contra eles”, diz Osit.
Embora tenha sofrido abuso sexual na infância, Osit recebeu ameaças de morte por questionar os métodos de Hansen e por exibir imagens cruas que mostravam outro lado dos suspeitos retratados no programa. Obtidas por meio de pedidos de acesso à informação, as gravações os mostram implorando, contando histórias pessoais que incluem problemas de saúde mental e demonstrando arrependimento.
“É uma divisão muito rígida entre bons e maus, embora, como sociedade, também tenhamos contribuído enormemente para criar um mundo em que a mídia sexualiza abertamente crianças e adolescentes”, afirma Osit.
Predators aborda, por exemplo, a sexualização excessiva de Britney Spears quando ela ainda era adolescente.
“Como sociedade, não achamos que pessoas que abusam sexualmente de crianças precisem de proteção”, acrescenta Osit. “Em geral, nem sequer as vemos como seres humanos. Por isso, é compreensível que não nos preocupemos tanto em preservar sua identidade. Mas, quando decidimos que certos grupos não precisam de proteção, abrimos caminho para dizer o mesmo sobre outras pessoas.”
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Um caso especialmente grave trouxe à tona as dúvidas sobre a ética do programa.
Em 2006, a equipe tentou atrair para uma operação no Texas o promotor adjunto Louis William “Bill” Conradt.
Como ele não apareceu, a equipe de Hansen e a polícia foram até a sua casa com um mandado de busca e prisão preparado às pressas. Pouco depois, Conradt tirou a própria vida.
A irmã dele processou o programa, pedindo US$ 105 milhões (cerca de R$ 546 milhões), e o caso terminou em um acordo extrajudicial.
O documentário de Osit mostra como a equipe de Hansen trabalhava em conjunto com a polícia. Segundo o filme, agentes teriam recebido dinheiro para aparecer no programa e costumavam usar câmeras para obter imagens impactantes, numa época anterior à adoção das câmeras corporais.
Em 2021, ao comentou a morte de Conradt, Hansen afirmou que o promotor possuía material de abuso sexual infantil. A revista Esquire contestou essa afirmação em uma reportagem sobre o suicídio. Hansen também disse que, embora tivesse sido “um momento difícil”, não “se sentia responsável”. E acrescentou que era possível “presumir” que Conradt “não queria enfrentar as consequências”.
Crédito, A24
Um formato que continua em alta
A NBC encerrou o quadro original To Catch a Predator em 2008, mas a fórmula criada para atrair audiência continua viva, agora em um programa próprio. Takedown with Chris Hansen é exibido na TruBlu, plataforma de streaming que Hansen ajudou a fundar em 2022.
Na internet, surgiram também inúmeras imitações no YouTube e em outras plataformas.
“Hoje, qualquer pessoa pode fazer esse tipo de conteúdo com o celular”, diz o jornalista Staples. Ele cita Louis Theroux: Por Dentro da Manosfera (2026), documentário de Louis Theroux para a Netflix, que mostra estratégias desse tipo.
“Gostamos de pensar que deixamos To Catch a Predator para trás, mas a disputa por atenção mostra que continuamos atraídos por conteúdos igualmente extremos nas redes sociais”, acrescenta Staples.
Crédito, Getty Images
“Quando olhamos para a internet hoje, vemos uma ideia de justiça feita pelas próprias mãos por trás de vários vídeos virais. Meu algoritmo vive me mostrando vídeos de pessoas expulsas de aviões por mau comportamento ou agredidas num McDonald’s depois de dizer algo racista a um funcionário.”
Staples acrescenta que “esses vídeos passam a sensação de que pessoas más estão recebendo o que merecem, de que a justiça está sendo feita. E isso ainda atrai muita atenção e gera muito engajamento.”
Em Predators, Osit conversa com Skeet Hansen, fã que imita o apresentador. Skeet não vê problema em ganhar dinheiro confrontando suspeitos de crimes sexuais.
“Algumas pessoas acham que Hansen é um verdadeiro monstro”, diz Osit. “Outras o consideram um herói. Acho que a opinião de cada um depende de como enxerga a humanidade, sobretudo as pessoas mais vulneráveis, e o funcionamento da sociedade.”
To Catch a Predator e programas semelhantes continuam dividindo opiniões: há quem os veja como uma forma de fazer justiça e quem os considere uma exploração do tema em busca de audiência. O mesmo acontece com Primetime, filme inspirado no programa.
Apesar das críticas positivas, o longa foi chamado de “um filme leviano sobre a superficialidade” por John Bleasdale, da revista Sight and Sound.
O próprio Hansen disse que o filme “explora o tema”, chamando-o de “uma obra de ficção dramática” e afirmou que considera tomar medidas judiciais.
O filme levanta questões sobre o conteúdo que escolhemos produzir e consumir, além dos limites entre jornalismo e entretenimento. Osit também teve de lidar com essas questões ao fazer Predators.
“Toda vez que colocamos uma música de fundo para provocar uma emoção no público, participamos disso”, diz o documentarista. “Também tentamos informar e entreter ao mesmo tempo. O que acontece quando a atenção dada ao nosso trabalho se torna uma fonte de receita? O que acontece quando somos incentivados a contar histórias sórdidas?”
Primetime ainda não tem data de estreia no Brasil.