Crédito, Gentileza Família Nunn
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- Author, Christina McSorley e Sean Dilley
- Role, BBC News
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Published
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Tempo de leitura: 6 min
Importante: esta reportagem contém relatos de suicídios que podem ser perturbadores para alguns leitores.
A mãe de uma jovem britânica que tirou a própria vida declarou que o canadense Kenneth Law, que vendeu produtos químicos tóxicos para pessoas que acabaram se suicidando, deveria “apodrecer no inferno”.
Imogen Nunn, conhecida como Immy, morreu no seu apartamento em Brighton, no sul da Inglaterra, em janeiro de 2023, após comprar de Law uma substância na internet. Ela tinha 25 anos.
Law se declarou culpado de 14 acusações de instigação ao suicídio no Canadá. Ele entrava em contato com as pessoas em fóruns online sobre o assunto.
Além disso, foram relacionadas a ele quase 80 mortes ocorridas no Reino Unido. Mas, como parte de um acordo com as autoridades canadenses, Law não enfrentará acusações no país, nem pela morte de cidadãos britânicos.
A mãe de Imogen, Louise Nunn, declarou à BBC estar indignada por Law não comparecer à justiça por estes casos.
“Fomos traídos enquanto famílias”, lamenta ela. “Nossos filhos foram traídos.”

A promotoria canadense realizou um acordo com Law depois que ele se declarou culpado, retirando as acusações de assassinato.
Segundo a acusação, o ex-chef de cozinha vendeu cerca de 1,2 mil pacotes de substâncias tóxicas para pessoas que ele conheceu em fóruns online de suicídio em 40 países. Cerca de 25% dos pacotes foram enviados para o Reino Unido.
Na época, os familiares das vítimas britânicas manifestaram sua indignação pela promotoria do Reino Unido não ter imputado a Law a morte de 79 cidadãos britânicos que, segundo as autoridades, estava relacionada aos produtos fornecidos por ele.
Crédito, Polícia Regional de Peel/Ontário (Canadá)
O Serviço de Promotoria do Reino Unido (CPS, na sigla em inglês) declarou ter aceitado o acordo de culpabilidade proposto pelo Canadá, com a condição de que a sentença de Law levasse em consideração as mortes de cidadãos britânicos.
A BBC teve acesso a uma carta que revelou que o CPS temia que Law pudesse impugnar sua extradição do Canadá para o Reino Unido e que a inclusão das vítimas britânicas no julgamento canadense seria a via “mais rápida e eficaz” para fazer justiça.
‘Você destruiu todo o meu mundo’
Na semana passada, a Justiça canadense ouviu declarações de vítimas britânicas sobre o impacto do ocorrido. Os testemunhos serão considerados para a emissão da sentença, o que deve ocorrer posteriormente.
Esta foi a única oportunidade que as famílias britânicas tiveram de expressar sua opinião no processo judicial. Mas, em declarações à BBC, Nunn afirmou que as autoridades censuraram parte do seu testemunho sobre o impacto da morte da filha sobre suas vidas.
“Acredito que tivemos a oportunidade de expressar o que queríamos na nossa declaração de impacto, mas, agora, fui informada de que suprimiram meu último parágrafo, que eu considerava nossa única oportunidade”, ela conta.
Naquele trecho, ela afirmava que Law destruiu a sua vida.
“Você destruiu todo o meu mundo”, escreveu ela. “Se Immy estivesse aqui, agora, sei exatamente o que ela me diria, mas eu não estou com Immy e jamais perdoarei você.”
‘As redes sociais a encheram de confiança’
Immy sofria de grave deficiência auditiva e mantinha presença nas redes sociais, compartilhando uma visão satírica da sua vida.
“Ela descobriu as redes sociais e me lembro de como ela estava feliz”, conta a mãe. “Ela tentou dar uma virada positiva sobre uma situação triste e transformou tudo o que era negativo na sua vida em algo mais positivo.”
“Aquilo a transformou e ela recuperou a confiança em si mesma. As redes sociais reforçaram sua autoestima e suas amizades.”
Crédito, Polícia Regional de Peel/Ontário (Canadá)
Em resposta à BBC, o CPS declarou que “estão sendo aplicadas algumas modificações às declarações das vítimas, seguindo orientação dos advogados canadenses, para garantir que elas sejam admissíveis nos tribunais do país”.
“Reconhecemos o profundo impacto dos delitos cometidos por Kenneth Law e estamos trabalhando para garantir que todas as vítimas e os familiares dos falecidos tenham a oportunidade de compartilhar suas experiências individuais durante o processo de sentença”, prosseguiu o CPS.
‘Comerciante de veneno’
Kenneth Law foi preso depois de uma complexa investigação realizada por pelo menos 11 organismos policiais, com a participação de uma dezena de países, incluindo o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos.
A prisão ocorreu em maio de 2023, uma semana depois que uma investigação do jornal britânico The Times revelou que ele vendia veneno para jovens.
Para realizar a investigação, um jornalista se fez passar por um cliente e conversou diretamente com Law. Segundo o The Times, durante essa conversa, Law teria assessorado o jornalista sobre a forma de uso dos seus produtos para “garantir a morte da forma mais eficaz”.
Em 2023, detetives canadenses informaram à BBC que Law gerenciava diversos websites, oferecendo equipamentos e substâncias para ajudar as pessoas a pôr fim às suas vidas.
Law admitiu à Promotoria canadense ter, com nome falso, buscado compradores para seus produtos mortais em um fórum de discussão sobre suicídio. Seus pacotes chegaram a clientes em pelo menos 41 países, incluindo o Canadá, a China, a França e o Brasil. Para o Reino Unido, foram enviadas 330 encomendas.
Uma de suas vítimas foi Jeshennia Bedoya López, de 18 anos, filha de pais colombianos que emigraram para o Canadá.
Crédito, Getty Images
Segundo o portal jornalístico Euronews, seu pai, Leonardo Bedoya, encontrou a jovem morta no quarto dela em 2022.
Ele descreveu sua única filha como a “luz na minha vida” e qualificou a decisão dos promotores de retirar as acusações de assassinato como “uma vergonha”.
Leonardo Bedoya e sua esposa, María López Ocaña, fazem parte do grupo de familiares de pessoas que morreram depois de comprar substâncias letais de Kenneth Law, que se pronunciaram na semana passada, em audiência no Tribunal Superior de Justiça de Ontário.
Agora, a justiça começa a deliberar por quanto tempo o ex-chef de cozinha deverá ficar na prisão.
Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:
– Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190);
– Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;
– Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h;
– Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.